comportamento alimentar infantil logo cenoura

É importante notar que todos estes aspectos devem ser avaliados de acordo com a fase de desenvolvimento da criança ou do bebê. Ou seja, é perfeitamente normal que em muitas fases a criança recuse, apresente desinteresse ou pouco apetite pela comida. Por exemplo, durante a fase de introdução alimentar é normal que o bebê recuse alimentos. Ou ainda, em fases de salto de desenvolvimento é normal que o apetite diminua. Quando a criança ganha autonomia é normal que todos estes aspectos se alterem. Em fases de mudanças na rotina da criança também é compreensível que ela se desinteresse pelo alimento.

O ponto é que a alimentação sofrerá mudanças e isso deve ser encarado como um aspecto normal do desenvolvimento. Geralmente, a este fenômeno as pessoas chamam de “seletividade alimentar”. O grande problema é quando há uma mudança muito grande ou que permaneça por muito tempo. Quando muitos destes aspectos são fortemente alterados precisamos buscar compreender melhor o que pode estar acontecendo com a criança.

Neste sentido, é possível que ela tenha um transtorno alimentar que é desconhecido por muitos profissionais. O motivo deste desconhecimento é simples: este é um transtorno recentemente adicionado ao manual de doenças DSM. Em 2013 este transtorno foi descrito por uma equipe altamente capacitada como Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE).

Pessoas com este transtorno evitam alimentos e restringem o cardápio de alimentos aceitos. Estas pessoas têm problemas de ordem social ou orgânica. Ou seja, este transtorno pode interferir na vida social da pessoa que deixa de ir a restaurantes, encontros familiares, viagens, etc. O transtorno também pode interferir em aspectos orgânicos e muitas vezes é necessário usar suplementação para suprir as necessidades nutricionais. 

Para compreender se a criança possui ou não este transtorno é preciso fazer uma avaliação completa dos comportamentos, emoções, sintomas, histórico e família. Mas a dúvida ainda permanece: como surge este transtorno?

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estetoscópio de médico pediatra

Doutor, o meu filho não come!

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O transtorno pode representar uma resposta negativa condicionada associada à ingestão alimentar seguindo, ou antecipando, uma experiência aversiva, como engasgo/sufocamento; uma investigação traumática, geralmente envolvendo o trato gastrintestinal (p. ex., esofagoscopia); ou vômitos repetidos. Neste sentido, outras questões orgânicas que podem estar associadas são: infecções (especialmente problemas respiratórios), desordens na motilidade intestinal (vômitos, diarréia, refluxo e intolerância e alergias), prematuridade, problemas neurológicos, dificuldade de mastigação e/ou deglutição, presença de aftas, fissura palatina, estomatite, dores dentárias ou outras condições que provoquem dor e sofrimento.

Outras questões que podem estar associadas a este transtorno são: distúrbios da dinâmica familiar (alteração no vínculo mãe-filho, tensão familiar, dificuldade dos pais em estabelecer limites, mudanças na rotina, separação dos pais, falecimento na família, nascimento de um irmão), distúrbios emocionais da criança (problemas de ajustamento, negativismo, busca de atenção, satisfação de desejos), desmame e/ou introdução alimentar inadequados, falta de conhecimento dos pais a respeito do desenvolvimento do comportamento alimentar da criança, condições ambientais físicas desagradáveis, desacerto entre horários de sono e/ou escolares e horário de alimentação. De mesmo modo alguns transtornos estão muito associados ao Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo, como: autismo, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, transtornos de humor e transtornos de ansiedade.

Há questões culturais e familiares que dificultam o diagnóstico quando não há sintomas muito graves e o desenvolvimento físico e cognitivo da criança está normal. Afinal, escolhas e preferências alimentares são perfeitamente normais e compreensíveis. Porém, o Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo (TARE) ultrapassa um quadro de preferências e em alguns casos a criança pode apresentar recusa total aceitando apenas líquidos ou requerendo alimentação por tubos. A boa notícia é que isso acontece apenas com uma parcela muito pequena de crianças com este transtorno. 

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​A família deve levar a criança para a avaliação profunda de todas estas questões com um profissional que conheça o TARE e proponha uma solução. A primeira questão a ser verificada é descartar doenças e avaliar o estado nutricional da criança. Porém, muitas famílias não encontram este profissional e na falta de solução buscam por eles próprios algo que resolva a situação o que geralmente não tem bons resultados. Estas soluções geralmente são: oferecer um brinquedo se a criança comer, forçar a criança a comer ou punir a criança caso não coma. Infelizmente a criança associa mais situações negativas à alimentação o que tende a piorar o quadro alimentar.

É possível melhorar o comportamento alimentar de outras formas e buscar técnicas psicológicas é uma delas. O objetivo com o uso destas ou outras estratégias não deve ser ter uma criança que “come de tudo” e assim satisfazer as expectativas dos pais. Ao contrário, as estratégias são utilizadas para ampliar o cardápio da criança e trazer maior satisfação na sua relação com o alimento de acordo com as suas possibilidades no momento.

Referências:                   

American Psychiatry Association, (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders - DSM-5. 5th.ed. Washington: American Psychiatric Association.

Kachani, A. T., Abreu, C. L. M. D., Lisboa, S. B. H., & Fisberg, M. (2005). Seletividade alimentar da criança. Pediatria, 27(1), 48-60.


criança sentada no sofá

Maria Cristina Lopes | Psicóloga CRP5/47829
Mestranda em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade de Coimbra
Psicoterapeuta infantil pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro
Certificada pelo Conselho Federal de Psicologia para atendimentos online
Criadora do curso online “Como fazer seu filho comer”
www.mamaecuidadora.com.br

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Muitos pais chegam ao consultório do pediatra buscando uma estratégia, terapia, medicação, indicação ou tratamento para a demanda: “meu filho não come”. Infelizmente, para este problema muitos profissionais ainda não possuem conhecimento específico para avaliar a criança ou podem indicar alguma estratégia válida para seus pacientes. O cenário a seguir é problemático, pois a família pode estar enfrentando um problema real, mas ficam sem uma solução dos profissionais.

Neste artigo tentarei explicar sobre a relação da criança com o alimento e a partir de quando os pais devem se preocupar. Apesar de a alimentação envolver muitos aspectos, geralmente os pais e muitos profissionais encaram a alimentação como algo genérico sem perceber as muitas nuances que devem ser avaliadas. Neste sentido, as áreas mais problemáticas da alimentação serão:

1 – Aceitação/recusa. A aceitação/recusa alimentar se refere sobre o comportamento da criança em relação a alimentação de forma geral. Por exemplo: aceitação/recusa de lanches, refeições, alimentos novos, etc.

2 – Apetite. Este aspecto se refere a quantidade de comida que a criança ingere normalmente. O apetite deve ser sempre avaliado de acordo com a curva de crescimento da criança. Afinal, cada corpo é um e a fase de desenvolvimento também interfere no apetite. Apesar de muitos pais reclamarem sobre o pouco apetite dos seus filhos, em muitos casos este não é o problema.

3 – Interesse/desinteresse. O interesse/desinteresse se refere a emoções, pensamentos e comportamentos gerais sobre o alimento. Alguns questionamentos para compreendermos o interesse/desinteresse pelo alimento são: “a criança pede por comida?”, “a criança gosta do horário da refeição?”, “a criança fala com prazer sobre a comida?”, etc.