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O alimento deve ser considerado um objeto que representa todas estas questões emocionais, comportamentais, familiares e sensoriais. Ele deve ser avaliado de forma integral e só deve ser considerado quando for persistente, trazer consequências nutricionais negativas e dificultar situações sociais - desde não suportar permanecer à mesa por rejeição alimentar até desencadear comportamentos agressivos ou evitativos.

As consequências de ordem orgânica da seletividade podem levar muitos profissionais da área de saúde a olhar mais atentamente para a seletividade. Através do DSM-V estabelece-se o TARE com critérios específicos e enfim os profissionais podem avaliar, diagnosticar e planejar um tratamento para os identificados. Pela característica de causas multifatoriais é necessário tratamento e uma abordagem multidisciplinar, desde avaliações, consultas e tratamentos com psicólogo, nutricionistas, fonoaudiólogos, fisioterapeuta, pediatras, neuropediatras, gastropediatras, etc.

Referências:

Adams, J. B., Johansen, L. J., Powell, L. D., Quig, D., & Rubin, R. A. (2011). Gastrointestinal flora and gastrointestinal status in children with autism–comparisons to typical children and correlation with autism severity. BMC gastroenterology, 11(1), 22.

American Psychiatry Association, (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders - DSM-5. 5th.ed. Washington: American Psychiatric Association.

de Carvalho, J. A., Santos, C. S. S., de Carvalho, M. P., & de Souza, L. S. (2012). Nutrição e autismo: considerações sobre a alimentação do autista.

Finegold, S. M., Molitoris, D., Song, Y., Liu, C., Vaisanen, M. L., Bolte, E., ... & Collins, M. D. (2002). Gastrointestinal microflora studies in late-onset autism. Clinical Infectious Diseases, 35(Supplement_1), S6-S16.

Horvath, K., Papadimitriou, J. C., Rabsztyn, A., Drachenberg, C., & Tildon, J. T. (1999). Gastrointestinal abnormalities in children with autistic disorder. The Journal of pediatrics, 135(5), 559-563.

O autismo é um transtorno global do desenvolvimento marcado por problemas no desenvolvimento social e da comunicação e por comportamentos e interesses fixos. Também são comuns problemas de ordem sensorial. Porém, há um aspecto que geralmente é negligenciado e não é associado ao autismo nos consultórios: as desordens gastrointestinais. Este aspecto poderá estar associado a uma comorbidade muito comum em autistas: a seletividade alimenta (Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo – TARE). O objetivo deste artigo será compreender esta relação.

Muitos estudos já demonstraram a prevalência da seletividade alimentar em autistas. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) causa consequências funcionais e é necessário compreender comorbidades e sintomas associados que podem causar maiores complicações. Neste sentido é importante salientar que há especificidades gastrointestinais em autistas (Finegold et al., 2002, Adams, Johansen, Powell, Quig & Rubin, 2011, Horvath, Papadimitriou, Rabsztyn, Drachenberg & Tildon, 1999). Para além de questões comportamentais e sensoriais precisamos perceber problemas alimentares em autistas com um olhar integral o que inclui observar desordens gastrintestinais.

Autistas no geral sofrem problemas gastrointestinais e autistas não-verbais podem expressar seu desconforto pressionando a barriga em móveis, objetos, pernas, etc. “Há uma série de desordens gastrointestinais que podem acometer os autistas, como diminuída produção de enzimas digestivas, inflamações da parede intestinal, e a permeabilidade intestinal alterada, sendo que todos estes fatores agravam os sintomas dos portadores da doença.” (de Carvalho & Santos, 2012). Não devemos ignorar questões biomédicas e sua relação com questões psicológicas, comportamentais, sensoriais e emocionais. Esta complexa relação pode levar a outros transtornos.

criança olhando
Artigo novo diagnóstico Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo

Seletividade no autismo: problema relacionado aos quadros gastrointestinais?

Maria Cristina Lopes | Psicóloga CRP5/47829
Mestranda em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade de Coimbra
Psicoterapeuta infantil pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro
Certificada pelo Conselho Federal de Psicologia para atendimentos online
Criadora do curso online “Como fazer seu filho comer”
www.mamaecuidadora.com.br

“História de condições gastrintestinais, doença de refluxo gastroesofágico, vômitos e uma gama de problemas médicos foram associados a comportamentos alimentares característicos do transtorno alimentar restritivo/evitativo.” (APA, 2013, p. 336).

Portanto, quadros gastrointestinais são associados a ambos os diagnósticos (autismo e seletividade alimentar) o que nos permitem expandir o olhar sobre a relação destes dois transtornos para além de questões comportamentais e sociais. A questão é: seriam os quadros gastrointestinais comuns no autismo causadores da seletividade alimentar nesta população?

Obviamente, interesses fixos e dificuldades sensoriais são questões intimamente relacionadas ao alimento. Porém, devemos mudar o panorama para tentarmos perceber todas as questões associadas à seletividade alimentar no autista.

A alimentação acompanha as vicissitudes do autismo em suas especificidades biológicas, sociais, emocionais, perceptivas, sensoriais, comportamentais e cognitivas. Um transtorno alimentar, desta forma, só poderia ter causas multifatoriais. Identificar o transtorno alimentar em autistas pode não ser uma tarefa fácil, afinal, o seu comportamento é singular. Em crianças com TEA não podemos tomar como distúrbio um comportamento que foge à norma de crianças sem o diagnóstico do autismo. Precisamos investigar seus sintomas e dinâmica familiar além dos sintomas alimentares.

O alimento representa o objeto talvez mais constante e definitivo em nossas vidas e nossa relação com ele traduz nossas vivências e individualidades. Isso significa que muitas crianças dentro do TEA possuem problemas alimentares que não devem ser considerados seletividade. 

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